18.12.09

Emerson, filho do Mar

"Deixai um homem aprender a procurar o permanente no efémero; deixai-o aprender que está aqui, não para agir, mas para ser agido e que, apesar de um abismo se abrir sobre outro, todos estão, em definitivo, contidos na Causa Eterna.

A nossa vida é como o tempo de Março, simultaneamente selvagem e serena.

Cada homem é uma impossibilidade até à sua nascença, cada coisa é impossível até vermos o seu sucesso.

Vejo, tal como sou; qualquer que seja a linguagem que utilizemos, nunca poderemos dizer outra coisa a não ser o que somos

Sei que o mundo com que converso na cidade e nas quintas não é o mundo que penso.

É preciso muito tempo para comer, dormir ou ganhar cem dólares e muito pouco tempo para alimentar uma esperança e uma visão que se tornem a luz da nossa vida."

Uma gota de sangue, humana e rubra
Pesa mais do que o mar que vocifera.
O mundo em seus enganos vem e vai
Mas o amante tem raízes, e espera.
Pensei que para sempre ele partira,
Passaram tantos anos, roda infinda.
Mas como sempre desponta o dia novo,
Eis que uma intacta doçura brilha ainda.
E cantou meu coração, já libertado
Dos cuidados em que antes se perdia:
Amigo, só por ti a rosa é púrpura,
Só tu susténs a cúpula do dia.
Tudo ganha por ti mais nobre forma,
Tudo pousa além-terra seu olhar,
Em ti a velha mó do fado nosso
Se transfigura em trilho solar.
Aprendi a dominar meu desespero
Ao ver tua nobreza - tão apenas.
E as fontes da minha vida oculta
Correm, por ti, amigo, mais serenas.


"Ainda há uma vitória para toda a justiça, e o romance verdadeiro para cuja realização o mundo existe será a transformação do génio em poder prático.

Temos de ser de nós mesmos antes de podermos ser de outrem.

Nunca pode haver funda paz entre dois espíritos, nunca mútuo respeito, a menos que no seu convívio cada um equivalha ao mundo todo.

Persistindo em teu caminho, embora percas o que é pouco, ganharás o que é muito."

Ralph W. Emerson, A Confiança em Si, A Natureza e Outros Ensaios

13.12.09

Leão de Fogo

"Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a raiz de David, venceu para abrir o livro e os seus sete selos."
Apocalipse 5:4-6

18.10.09

Ver para Ser

O verdadeiro dever é ver.

6.10.09

Canción con Todos



Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto


28.9.09

22.9.09

Parole Parole

Parolos os que apenas vêem parole (palavras em italiano).

Ouvir é esquecer, Ver é recordar, Fazer é compreender

Provérbio Chinês

Ser (luz) é compreender,
conter... o som.

18.9.09

o som é luz na escuridão

14 bis

e o dia é apenas essa mesma escuridão, iluminada.

15.9.09

O Amor é forte como a Morte

Dora Ferreira da Silva



Lonely rivers flow,
to the sea, to the sea
To the open arms of the sea
Lonely rivers cry,
wait for me, wait for me
I´ll be coming home

12.9.09

Gaiavoa

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa...
o teu olhar derradeiro.


Quem me dera ser gaivota,
a gaivota que sou.

Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

28.8.09

Sagrada Transparência

O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim, tão transparente


Ivan Lins

26.8.09

Marinheiro Sol

Eu não sou daqui
Marinheiro só
Eu não tenho amor
Marinheiro só
Eu sou da Bahia
Marinheiro só
De São Salvador
Marinheiro só


Caetano Veloso

7.8.09

Luz del Fuego

meu sangue, português
minha pele, brasileira
meu silêncio, p
minha voz, b
minha noite, p
meu dia, b

minha saudade, p
meu amor, b

Aime pb
I am pb

6.8.09

Um pouco mais de sol - eu era brasa

Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sul - eu era brasil
Portugal

28.7.09

Mercury 44º



É lá lá lá lá...
é Sal é Sol é Sul

9.7.09

O Fabuloso Destino... chamado Brasil



Ô, eu si vou, não vouto!

3.7.09

2.7.09

Do Tempo Perdido II

... até que a perda seja total:

1.7.09

Do Tempo Perdido

Perder tempo? Oh, mas é sempre o tempo que nos perde a nós...

28.6.09

Chegar

«Nós estamos aqui para fugir,
nós estamos aqui para chegar de vez.»
Vasco Gato (num túnel de Belém, Lisboa)

Salva-me

Não sei lutar contra mim, não sei amar-me.
Salva-me... de mim.
Deixa amar-te-me.

21.6.09

Want&Need

Quando se Ama, querer e precisar viram um só.
O ser volta ao que é. Uno.

12.6.09

Matrimónio

Uma das maiores infelicidades cometidas pelo homem a si mesmo é ceder o lugar do matrimónio ao património - o trono: só que o nosso lugar é sempre a mãe-terra - do amor.

De que nos valem os monumentos sem o vivo amor entre nós?
Ahh, sim! mil vezes antes o devastador terramoto dos corações apaixonados!
Mil vezes antes viver simplesmente (a)o ar livre de amar!

Caiam! Caiam todos os patrimónios que se perderam irremediavelmente da sua origem: do matrimónio.
Caiam de novo à terra, ao menos. E deixem viver em pé quem pela terra ainda vive!
Quem vive do coração em chamas de eterno amor.

Vivas ao Santo António! Ao Santo Matrimónio!

5.6.09

O Valor da Vida

«[para o fim da crise:] acabar com o dinheiro»
Manoel de Oliveira (em entrevista ontem à RTP1)

«Artigo XII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.»
Thiago de Mello, Faz Escuro Mas Eu Canto

1.6.09

Música da Bahia do Amor



Se enche... mas o coração é o eterno sedento...

Vamp



e já lá vão 18 aninhos...

Só, a Vida.

Ó
o tempo suave...
o som da palavra doce...
a vida da gente gentil.
Ó
a Vida.

31.5.09

Sem Ti

Sinto falta do Teu silêncio.

Ouvir o Coração

Nesta vida raras foram as conversas que se deram sem erro, falta. Muitas foram as que em silêncio poderiam ter sido perfeitas: se não nos tivessem (des)habituado (ai de nós, tão desabitados) a ignorar o silêncio - a Vida.

30.5.09

29.5.09

Olhar Sertanejo

«(...) o sertão é uma visão.


O Sertão é o Mundo.»
À volta do livro de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas

27.5.09

Não ser

«Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!...»
Florbela Espanca, Charneca em Flor (1930)

26.5.09

Até ao Fim

«A vida inteira dentro de mim.»
Vergílio Ferreira, Até ao Fim (última frase do livro)

25.5.09

Som do Verão



Música do Verão Passado - Futuro ?

23.5.09

17.5.09

Fogo

Jamais se apaga o que tudo apaga acendendo-se.

15.5.09

Eros

«MÁSCARAS! Máscaras! Deslumbrai o Eros.
Quem aguenta os seus olhos coruscantes,
quando, como o solstício do verão,
interrompe o prelúdio primaveril?

Como de súbito a loquacidade
se faz outra e séria... Algo gritou...
E ele lança o calafrio inominado,
como o interior dum templo, em cima deles.

Oh! perdidos!, de súbito: Perdidos!
Rápido é o abraço dos deuses.
Torceu-se a vida, o destino nasceu.
E no íntimo uma fonte chora.»
Rainer Maria Rilke, Poemas - 1924

Leda e o Cisne

«Quando, na sua aflição, entrou no cisne,
o deus quase tremeu por o achar tão belo;
Todo confuso desaparece dentro da ave.
Mas já a sua astúcia o leva à acção

antes mesmo de ter experimentado
o sentir do não-provado ser.
E a bela aberta reconheceu no cisne
o que vinha e sabia o que pedia

e que ela, confusa em sua resistência,
já não podia ocultar. Ele abaixou-se,
e, pelo pescoço, através da mão que esmorecia,

entrou o deus dentro da amada.
Só então é que ele, feliz, sentiu a plumagem
e se fez cisne real no seu regaço.»
Rilke, Novos Poemas

Canto das Mulheres ao Poeta

«Vê como tudo se abre: assim nós somos;
pois nós somos mais que esta alegria.
Tudo o que num bicho é sangue e trevas
cresceu e fez-se alma em nós e grita

como alma. E é por ti que grita.
É verdade que tu o tomas só nos olhos
como paisagem: suave e sem desejo.
E por isso nós julgamos não seres tu

por quem grita. Todavia, não és tu
aquele em quem nos perderíamos de todo?
E seremos nós em qualquer outro mais?

Connosco passa por ti o infinito.
Mas tu, boca, sê, que nós o ouçamos,
mas tu, tu que nos exprimes: tu sê.»
Rilke, Novos Poemas

14.5.09

Pórtico

«Quem quer que sejas: Quando a noite vem,
sai do teu quarto onde tudo conheces;
a tua casa é a última ante o longe:
Quem quer que sejas.
Com teus olhos, que, de cansados, mal
conseguem libertar-se do teu limiar gasto,
levantas devagar uma árvore negra
e põe-la ante o céu: esguia, só.
E fizeste o mundo. E ele é grande
e como palavra ainda a amadurar no silêncio.
E quando o teu querer abrange o seu sentido,
teus olhos o abandonam, ternamente...»
Rilke, O Livro das Imagens

Coração, o Trono da Palavra

«Tenho tal medo da palavra dos homens.
Eles exprimem tudo com tanta clareza:
e isto chama-se cão e aquilo casa,
e aqui é o começo e acolá é o fim.

E também me amedronta o seu sentido e o seu jogo com o escárnio,
eles sabem tudo o que vai ser e já foi;
não há monte que lhes seja maravilha;
o quintal e a quinta deles vão às fronteiras de Deus.

Hei-de advertir e opor-me: Ficai de largo!
Gosto tanto de ouvir cantar as coisas.
Mal lhes tocais, ficam hirtas e mudas.
Matais-me todas as coisas.»
Rainer Maria Rilke, Alba Poética

«O que estava sentado no trono afirmou: Eu renovo todas as coisas
Ap 21:5

Eu Só

O Mistério Maior é o Silêncio, é silencioso. É ausência, e a ausência não tem mistério: não tem, nem é, nada.

Mistério é Ser. Mas Ser é só(l) Ser.

Eu sou

Manu Chao



Raiz, Rainha

Não há progresso sem re(i)gresso

13.5.09

O Mistério Maior? Não haver Mistério.

«O maior segredo é não haver mistério algum.»
Renato Russo

«E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.»
Alberto Caeiro

O Grito (do) Criador

«As criaturas da esperança recebem a palavra do apóstolo, a palavra nova, que é o seu próprio silêncio feito voz. Ouvindo-a, alegram-se, como num súbito ambiente luminoso. Ávidas de arder, incendeiam-se de alegria. Elas e o apóstolo encontraram-se no mesmo caminho do Futuro. Algumas, tentam deter-lhes a marcha, ou ficam, nas margens, paradas ou hesitantes. Mas quem as deterá no seu ímpeto? Quem deterá a fome, a sede...?
Paulo não transmitia às almas a sua doença, porque elas já sofriam, como ele; mas sofriam sem remédio. Escravas, ignoravam a liberdade; criminosas, ignoravam o perdão; mortais, ignoravam a imortalidade. E eis que aparece um criminoso, que viu o perdão em Jesus Cristo; um escravo, que viu a liberdade em Jesus Cristo; um mortal, que viu a imortalidade em Jesus Cristo. É S. Paulo.
Todos queremos emendar a nossa vida; mais: emendar a Vida. A que aspira o criminoso? A ser inocente. E quem sofre? A gozar. E quem morre? A ressuscitar. Será possível? A razão diz que não. Mas Paulo diz que sim, gritando. Este sim é ele mesmo, volatilizado num grito, que abala e renova todas as coisas. Podemos duvidar duma palavra, dum grito ninguém duvida; vem de mais fundo que a palavra e sobe mais alto do que ela. O verbo do apóstolo tem a intensidade dos gritos. É o verbo divino da loucura, que todo o acto criador é de loucura, desde o Genesis. Ofende a ordem estabelecida, a harmonia consagrada, os ditâmes da razão humana. A atitude divina é anti-racional [supra].
Paulo afirma de tal modo a sua ideia religiosa, que lhe dá perfeita realidade. É um condensador de nubelosas, um acendedor de estrelas. Para ele, evocar é materializar. Evoca Jesus e converte-o num ser presente. A dor pertence ao corpo, embora seja a alma a padecê-la. A dor é deste mundo; e o seu poder plástico infinito concebe anjos e deuses, que penetram nos domínios da existência.
Paulo afirma Jesus e todos o acreditam, porque o vêem, na sua afirmação, como ele o vê. Paulo viu Jesus e ouviu-o! Como descrer ou duvidar? A descrença é cegueira e a dúvida é falta de vista. Duvidar é pensar em linha quebrada; mas crer é pensar em linha recta. A crença é a mais curta distância entre a Verdade e o nosso pensamento, ou é, talvez, a ausência de distância entre a Verdade e o Pensamento.
Nem os seus olhos nem os seus ouvidos se enganaram. Não é Paulo o espírito da luz e o do som, o instinto fatal que não se ilude? Esse instinto de anjo ou bruto, que divinizou a ibis e o touro negro, no Egipto, e outros bichos ainda, que nos bichos, e até nas árvores, há um valor secreto e mitológico. Moisés e Alexandre usaram chifres, na cabeça. Tocaram-se de mistério e divindade, como Virgílio, cingindo a coroa de louros, e os padres celtas envolvendo-se na sombra litúrgica dos bosques.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

«Já viram Deus as minhas sensações...»
Fernando Pessoa, Passos da Cruz

12.5.09

Os amantes

René Magritte, 1928

Ser apenas o que vê, não ser quem vê.
Mas para não ser quem vê... não se vê...

ficando o ouvir,
o invisível amor em estado puro - Original.

«Amar Jesus é ser com ele na morte passageira e na vida eterna. Não se trata de sobrevivência, em nós, de qualquer entidade invisível e abstrata, mas do próprio corpo [do coração: do Amor] ressurgido.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

10.5.09

Agora, só falta a Vida...

9.5.09

Dia

«Amanhece.
O poeta de penas já cantou.
Já nos seus altos versos adormece
O fantasma da noite que passou.

Como um halo de sonho acontecido,
A luz das coisas vai nascendo em nós;
Desenha-se na sombra o pressentido,
E a vida já tem gestos e tem voz.

Já novamente o sol doira a frescura
Da relva verde e do lençol de linho.
Outra vez há ternura
De gente a ver-se e de se ver caminho.»
Miguel Torga, Diário II

7.5.09

Grito da Serra

A Água é o grito mudo da Terra:

é o grito que dá à Luz.

Exercício Espiritual

«Ouço-os de todo o lado.
Eu é que sou assim,
Eu é que sou assado,
Eu é que sou o anjo revoltado,
Eu é que não tenho santidade...

Quando, afinal, ninguém
Põe nos ombros a capa da humildade,
E vem.»
Miguel Torga, Diário I

5.5.09

Ave Poética

«Somos um povo de apaixonados. Enamoramo-nos dum autor, ou odiamos pessoalmente um outro, e a nossa actividade crítica cessa. Do primeiro fazemos um génio; do segundo, um animal. Esta simples coisa de gostar simultaneamente da obra de dois escritores, é impossível aqui. A paixão duma exclui a da outra. (...)
Sofre de grandes vícios a vida mental portuguesa (...). Não há pregação que nos dê fantasia, finura, leveza e, sobretudo, o dom de argamassar as fendas da construção com o betume duma inteligência que não cesse de se desdobrar. Mas um dos mais feios e lamentáveis é esse da parcialidade e do exclusivismo. Está bem, ou compreende-se, que num campo de futebol cada qual berre apenas pelo seu grupo. Embora em absoluto devêssemos aplaudir também as jogadas do adversário, tratando-se dum desafio é preciso incitar os nossos. Em arte, porém, não há combate nem adversários. Há o esforço de cada criador para trazer ao mundo a consciência e a beleza que pode, e ninguém deveria ignorar esse esforço e deixar de o louvar, se ele valesse a pena.

Lavro aqui mais uma vez o meu protesto contra toda esta filosofia do pessimismo que nos sufoca, e esta literatura do absurdo que nos liquida. Nenhum argumento nem nenhum sortilégio podem apagar no espírito do homem a luz de ilusão que ali bruxuleia. O erro grosseiro dos ironistas e dos derrotistas é não verem que eles próprios desmentem o visco e as profecias, porque, se lutam, é porque confiam. Sobretudo, parece-me uma limitação querer fotografar para a eternidade a face monstruosa dum momento. A Europa pode estar cansada, falida, contaminada por vícios incuráveis; mas a Europa não é o mundo, e ela própria tem ainda pedaços do corpo sem gangrena. Quando todos os analfabetos e famintos que lhe restam tiverem voz e pão, e falem de náusea, quando a herança da história, os bens do espírito, forem repartidos igualmente por todos os seus filhos, e o clamor colectivo seja de teimosa renúncia, então sim, soou a sua hora. Mas antes disso, não!
Um equívoco lamentável fez com que se tomassem as palavras literárias que morriam na capa das brochuras por sentimentos reais que agonizavam. E se é verdade que nos livros a tinta dos vocábulos descorou, dentro de cada um de nós o coração continuou a pulsar.
O homem é não só o instante em que se contempla num espelho, mas também a saudade doutras imagens passadas de que se recorda, e a certeza doutras imagens futuras que adivinha. E lá porque vê presentemente reflectida no ribeiro, onde mais uma vez faz de Narciso, não para se namorar, mas para se conhecer, uma face macerada, coberta dos suores da cobardia, nem por isso afoga na corrente os seus olhos. Embora triste e mortificado, continua a viver. E isto é sinal de confiança. Uma prova de que o mal tem remédio.
Se mais não houvesse a esperar da nossa condição, bastava-nos a má-consciência com que nos debatemos depois de cada perfídia. Pedimos ou não pedimos à lei que nos socorra, mesmo quando a queremos negar? Ou deixou algum tirano de lavar apressada e secretamente as mãos sujas do sangue inocente que verteu?
Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da actual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos profissionais deitam sal nas chagas para as avivar.
Alienação humana! Quem é que autorizou meia dúzia de intelectuais impotentes a falar deste modo em nome da humanidade? A chapinhar na lama deles, e a proclamar que é na lama dos outros? Que o testemunho da nossa aventura na terra é um rosário de traições e de injustiças, ninguém o nega; que é preciso que se diga isso de todas as maneiras, é evidente; mas nem tudo o que fizemos foi mau, e estamos a começar ainda.
Não! Há-de haver uma salvação possível neste mar de naufrágios, e vão sendo horas de erguer a voz contra os derrotistas da jangada. Aterrados pelas suas fúnebres ladainhas, temo-nos esquecido de reparar nos acenos do horizonte, onde amanhece sempre uma ilha à nossa espera. Não a ilha solitária de Robinson, que seria o recomeçar inútil duma vida de egoísmo e de esterilidade, mas o húmus generoso dum novo mundo onde se possa semear a esperança.

Não tenho nada mais senão as asas.
Quando subo os degraus do firmamento,
É com elas que subo e que sustento
O peso bruto desta incarnação.
Asas de penas que me vão nascendo,
E que voam depois, desconhecendo
Que fúria azul as levantou do chão.

(...) não há palavra que se escreva sem esperança.»
Miguel Torga, Diário V

Pois, «(...) é sempre alegre o gesto criador, a palavra inicial.»
Dora Ferreira da Silva, Poemas em Fuga

3.5.09

Anátema

«Não amas, e não podes
Ler o livro da vida.
Sem amor nenhuns olhos são videntes.
A tarde triste é o sol que não consentes
Ao coração.
Mundo de solidão,
O que atravessas,
É um deserto habitado
Onde apenas tropeças
Na sombra do teu eu desencantado.»
Miguel Torga, Idem

Lamento

«Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...»
Miguel Torga, Idem

Expectação

«Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.»
Miguel Torga, Diário XII

Alvo

«O arco, a corda e a seta...
Mas erraste,
Poeta!
Em vez de ser no coração do mundo
Que acertaste,
Foi o teu que rasgaste.

E tão frágil que ele era!
Rubra quimera
Aberta à desventura
Do eterno desdém,
Pedia aquele cuidado que se tem
Junto dum berço ou de uma sepultura.

Mas desferiste o golpe enraivecido,
Sem reparar
Que o agressor é sempre o agredido
Quando agride a cantar.»
Miguel Torga, Orfeu Rebelde

2.5.09

Não Passarão

«Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!»
Miguel Torga, Idem

A Raça

«Enxame rumoroso num cortiço
De paredes de espuma,
Que tropismo secreto e movediço
Trouxe da bruma
A abelha-mestra que o começou?
Que carinhoso aceno
Lhe faria este chão, seco e moreno,
Onde com asas de ilusão pousou?

Talvez que o silêncio lhe dissesse
Que só daqui, materna, poderia
Embarcar o enxame,
Que nascesse,
No velame
Doutra ilusão que o tempo lhe daria...»
Miguel Torga, Idem

Ibéria

«Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.

Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).

Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.»
Miguel Torga, Poemas Ibéricos

Terra Maninha

«Se é um poema fraterno que pedis,
Arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.

Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
Era o terreno da plantação!»
Miguel Torga, Cântico do Homem

1.5.09

Grande Guerra

«Podes roubar-me o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come.
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me, até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal... e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo-me as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu, que és senhor de impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me paz, saúde, e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
Que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas raízes supremas
São mordaças, grilhões, vendas, algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
"Filho, vem até mim!
A História principia onde eles põem: fim".»
José Régio, A Chaga do Lado

País da Amargura

Triste é a luta de (c)egos.
Luto meu.

30.4.09

O Poeta Morto

«Esse a quem chamam hoje ilustre e augusto
Porque... porque ele, agora, é inofensivo
Como qualquer estampa ou qualquer busto!»
José Régio, Biografia

Trem das Onze

Canções que marcam...

28.4.09

Transparecida

Só as almas transparentes podem compreender as palavras:
são as palavras. São o que são. O translúcido Amor.

27.4.09

Blur e Gorillaz

A música dos eternos alienados,


Estrela da Manhã

«Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.

Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece os linhos,
(...).

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressumam-lhe à flor da pele.

Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.

Vai.

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.

Vai.

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.

Vai.

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
tem que ser;
o mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
tem que ser.

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
tem que ser
António Gedeão, Movimento Perpétuo

23.4.09

Re(i)nascendo

«A cada verso nasço...
É cada verso o meu primeiro grito
à Vida...»
Sebastião da Gama, Idem

Versos do Paraíso

«Trago no sangue o mistério
daquele resto de estrada
que não andei...

E era talvez ali
que eu ia ser feliz;
ali
que viriam as Fadas pra contar-me
os contos lindos de Princesas
e de Palácios
e de Florestas
que ficaram por contar;
ali que havia de abrir-se
o tal jardim
com flores que nunca morrem
ou, se morrem, há-de ser
na pujança da frescura...»
Sebastião da Gama, Idem

Versos da Mãe-Terra

«Ó meu país do Sol!
Pressentimento
da claridade celeste!
Ó fonte de Pureza!
Ó minha
Serra toda pintada de Esperança
e debruada de azul!
Reveladora maga
dos meus cinco sentidos (...)
Ó minha outra Mãe,
que, num leito de flores e sorrisos,
me deste à luz de seda das Estrelas!
(...)
Ó Serra aonde a cor
é luz extasiada!;
(...)
Ó minha amante sempre virgem
(...)
Ó sorriso do Mar!, ó búzio longo
que prolongas a grande voz salgada!
(...)
Pátria do mês de Maio!
Madrugada
do Dia que há-de vir p'la mão da Morte!»
Sebastião da Gama, Idem

Céu

«Tenho uma sede imensa de beber
os soluços do Sol quando declina,
as carícias azuis do Luar de Agosto,
os tons rosa da Tarde que se fina...

É que eu seria Poeta, se os bebesse...
Não mais seria o cego de olhos limpos
(...)
E, se eu pudesse beber
esses longes de mim que vejo e quero,
em espasmos havia de os mudar
e, num desejo nunca satisfeito,
iria possuir-te, ó Mar!

Havia de cair, num beijo, sobre ti;
despir as minhas vestes de serrano,
tirar de mim aquilo que é humano,
e confundir-me em ti.

(...) um dia o Sol há-de surgir mais cedo
e o bom menino de olhos azuis,
de quem sou fraco arremedo,
há-de nascer, ó Mar, da nossa noite de Amor!

E tu, Menina que eu chamava,
Menina que eu chamava e encontrei
mas abrasada no amor divino
- tu hás-de ver então que o Céu que idealizas
é o olhar azul desse menino.»
Sebastião da Gama, Idem

Versos do Mar

«Ai!,
o berço da tua voz,
e esse jeito de mão que tens nas ondas,
Mar!

Quando eu cair exausto
sobre as conchas da praia e fique ali
doente e sem ninguém,
hás-de ser tu quem me trate,
quero que sejas tu a minha Mãe.

Há-de embalar-me a tua voz de berço,
pra que a febre me deixe sossegar;
e hás-de passar, ó Mar!,
pelo meu corpo em chaga,
as tuas mãos piedosas comovidas (...).

Como se fosses tu a minha Mãe...
Como se fosses tu a minha Noiva...

E hás-de contar-me histórias velhas
de Marinheiros...
Histórias de Sereias e de Luas
que se perderam por ti..
E se a Morte vier há-de quedar
toda encantada, a ouvir-te,
e, sem ânimo já de me levar,
sorrindo, voltará por seu caminho (...).»
Sebastião da Gama, Serra Mãe

Parábola da Ovelha

«Inútil, inútil, inútil,
qualquer palavra.
Aparece-lhe apenas.
Olha para ela, simplesmente,
com essa serenidade
que só Tu e os santos sabeis ter.
Ela compreenderá.
Ela Te seguirá por todos os abismos,
por todos os infernos,
pelos caminhos todos,
e por todas as dores necessárias
para chegar ao Reino da Verdade.

Nem palavras, nem mesmo mensageiros.
Tu somente, Senhor!, Tu lhe aparece
Com Teu silêncio grávido da Tua
Revelação.
Ela compreenderá.
E não dirá também uma palavra:
nem de perdão,
nem de arrependimento, nem de graças.
Guardá-la-á, Tua Revelação, no peito
e cerrará os lábios.
Mas seguirá por todos os caminhos,
por todas as alegrias...

Desamparada, espera.
Não sabe o quê, mas espera.
(Tu não prometes nunca...)
Mas virás.
E hás-de vir sem palavras.
Com Teus olhos serenos, simplesmente, com Teus modos serenos.
E ela compreenderá, irá ter conTigo.
Serena, sem palavras.
Nem há-de reparar
que Te não vira nunca.
Irá serena, sem palavras,
como se tudo aquilo
(sua tão longa espera,
Tua chegada repentina,
vosso encontro sereno),
como se tudo fora combinado.»
Sebastião da Gama, Idem

Esta música dá-me cabo do juízo... esta limpidez de Ser!

O Segredo é Amar

«(...)
Deixa ser o meu gesto uma grinalda
nos teus cabelos, Vida!
Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.

Adeus, adeus teus dedos ásperos! (...)
- Vida, quem é a minha namorada?»
Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

19.4.09

Fruto d'Ouro

Vinho é água de fogo.

«O pão é fruto da terra, (...) pela luz abençoado.

Olha! somos nós, nós; fruto das Hespérides é!»
Holderlin, Poemas

Os Carvalhos

«Dos jardins venho eu ter convosco, ó filhos do monte!
Dos jardins onde, paciente e doméstica, a Natureza vive,
Cuidadosa e juntamente cuidada c'o homem diligente.
Mas vós, Magníficos!, erguei-vos como um povo de Titãs
No mundo mais manso e a vós sós pertenceis e ao céu,
Que vos sustentou e criou, e à terra, que de si vos pariu.
Nenhum de vós foi ainda aprender à escola dos homens,
E alegres e livres irrompeis, da forte raiz,
Uns entre os outros e agarrais, como a águia a presa,
Com braço potente o espaço, e contra as nuvens
Se vos ergue serena e grande a copa soalheira.
Cada um de vós é um mundo, como estrelas do céu
Vós viveis, um deus cada qual, juntos em livre união.
Pudesse eu tolerar a servidão, e já não invejava
Este bosque e bem me amoldava à vida em comum.
Não me prendesse já à vida em comum o coração,
Que não deixa de amar, como eu gostaria de morar entre vós!»
Holderlin, Poemas

18.4.09

O Templo do Mundo: o Homem

«No mundo há um só templo: o corpo humano. Nada mais sagrado do que esta forma sublime. Inclinarmo-nos perante um homem, é render homenagem a esta revelação na carne. É no céu que tocamos quando tocamos num corpo humano.

Todo o objecto amado é o centro de um paraíso.»
Novalis, Fragmentos

Seta de Fogo

«Toda me entreguei, sem fim,
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado
.

Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado
.

Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Eu já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado

Santa Teresa de Ávila, Seta de Fogo

17.4.09

Rei Salomão

«Eu a rosa negra da planície de Saron lírio de seis pétalas no vale.
Como a rosa entre os espinhos cardos assim a minha amiga está entre as filhas.
Como a macieira entre as árvores no bosque o meu amado é entre os filhos.
Sob a sua sombra desejei e estive e o seu fruto luz doce na minha garganta.
Trouxe-me para a sua cave assinalou sobre mim o amor o seu pendão.
Rodeai-me de taças de vidro fundamentos pomos que adoeço de amor eu.
A sua esquerda sob a minha cabeça a sua direita que me há-de abraçar.
Vos rogo filhas de Jerusalém por gamo e por cervos do campo que não desperteis nem fareis desvelar amor na caça antes de que queira.
Voz do meu amado eis é o que vem atravessar os montes saltas sobre as colinas.
Semelhante o amado a gamo ou a cria de cervo é este aqui está além do muro brota entre janelas o que assoma pelas gelosias.
Respondeu o meu amado disse-me levanta o teu corpo minha amiga bela e caminha porque o inferno foi o exílio a chuva passou caminhou para além.
Saem da terra os rebentos eis o tempo da poda chegou hora do cântico.
E a voz da rola nos campos terra nossa peregrina que se ouve.
Na figueira brotam os figos e a vide o odor ergue-te a ti mesma amiga minha formosíssima e vem contigo. Minha pomba brava nos recantos da escarpa oculta nas espirais descobre a tua face Rosto faz ouvir a tua voz e essa tua face Rosto desejável.
Prendei-me as raposas novas que destroem vinhas nossas que estão em flor.
O meu amado meu unido e eu para ele o que apascenta entre as rosas lírios.
Antes de que sopre o dia e fujam as sombras na manhã na tarde sê semelhante meu amado a cabra ou a cria de cervo sobre as montanhas da separação.

III
No meu leito nas noites busquei o que amou minha alma busquei-o e não o achei.
Levantar-me-ei agora e vaguearei pela cidade pelas praças lugares amplos hei-de buscar o que amou minha alma busquei-o e não o achei.
Encontraram-me os guardas a ronda da cidade vistes o que amou acaso a minha alma?
E pouco me apartei além logo achei aquele que amou minha alma prendi-o e não o soltei até que o trouxe a casa de minha mãe câmara de minha avó quem me gerou.

(...)

Desperta Aquilão tu Austro vem sopra através do meu horto disseminem-se as suas essências.
Entre o meu amado no seu horto coma o fruto da doçura pomo raro.

V
Vim entrarei no meu horto irmã Desposada colhi a minha mirra e o meu bálsamo.
Comi o meu favo com o meu mel bebi meu vinho com o meu leite
ó meus amigos
comei e bebei e embriagai-vos vós meus companheiros.
Eu adormecida e o meu coração desperto voz de meu amado batendo abre irmã minha companheira
minha pomba perfeita minha a minha cabeça cheia de orvalho os meus cabelos de gotas de noite.
Despojei-me da minha túnica como a vestirei? Lavei os meus pés como os sujarei partindo?
O meu amado escondeu a mão pelas frestas das portas e o meu ventre estremece em mim ao tacto ao ruído.
Levanto-me a abrir ao meu amado minhas mãos gotejaram mirra líquida e os meus dedos mirra a que rescende líquida sobre os gonzos da aldraba os cadeados.
Eis abri eu ao meu amado e o meu amado partiu encobriu-se já não reside:
Encontraram-me os guardas a ronda da cidade feriu-me fizeram-me chagas tiraram o meu manto de sobre mim os guardas das muralhas.

Vos rogo filhas de Jerusalém se encontrardes o meu amado que lhe direi? Que sou doente de amor eu.
Em quê o teu amado é maior do que outro amante ó a mais bela das mulheres
porquê o teu amado é maior do que outro amante e assim nos conjuras?
O meu amado é branco e vermelho é o arco o escolhido com o seu pendão entre milhares.
A sua cabeça ouro fino de Tibar as suas madeixas pendem como palmas crespas negras como corvo.
Os seus olhos olhos de pomba à beira de mares arroios de água que se lavam no leite ajustam no seu engaste na amplitude.
As suas faces como sulcos de bálsamo ou jardim montículos de aromas misturados.
Os seus lábios rosas as que destilam mirra a que escorre líquida que circula.
As suas mãos de ouro no trono cilindros cheios de ónix a pedra que vem de Tarsis de jacintos.
O seu ventre marfim a branca obra de Ebur cercada de safiras.
As suas pernas colunas de mármore cimentadas sobre as bases de ouro fino.
O seu Rosto como o do Líbano escolhido erguido como cedro.
O seu paladar doçura o desejável meu amado o meu amor
ó filhas de Jerusalém.
Atribuído a Salomão, Cântico Maior

Ao Deus do Sol

«Onde estás? ébria a alma me escurece
De toda a delícia tua, pois inda agora
Eu vi como, cansado da sua
Viagem, o maravilhoso moço divino

Foi banhar seus jovens cabelos nas nuvens de ouro;
E inda agora os olhos me vão sozinhos pra ele;
Mas ele está longe - pra gente piedosa,
Que ainda o adora, partiu.

Eu te amo, Terra! pois choras comigo!
E o nosso luto, como dor de menino, faz-se
Sono, e assim como os ventos
Adejam e sussurram na harpa

Até que os dedos do mestre lhe arranquem o belo
Som, assim brincam connosco névoas e sonhos
Até que o Amado volte, e Vida
E Espírito se inflamem em nós.»
Holderlin, Poemas

15.4.09

Blind Zero

Uma Música...
Uma Corrida...
Uma Terra... Sudoeste Vicentino.
Um Mês... Agosto.
Um Ano... 2003.
Uma Amiga... Lúcia... Vicente! (Nascida quase num 21/12)
Uma Recordação... Ahhhh Liberdade!! Ver!... Ser o Amor!!

O Agir Segue o Ser: o Amar

Praia do Futuro, Fortaleza, Ceará

«O nome Ceará, ao pé da letra significa canta a jandaia. Segundo o escritor José de Alencar, Ceará é nome composto de cemo - cantar forte, clamar, e ara - pequena arara ou periquito (em língua indígena).

O Ceará é conhecido como Terra da Luz (...).

Com a expulsão dos invasores, a Coroa Portuguesa tomou posse da fortificação, rebatizando-a como Forte de Nossa Senhora da Assunção [na capital Fortaleza].

[Fortaleza] Batizada de Loira desposada do Sol, pelos versos do poeta [Francisco de] Paula Ney (...).

A pedra fundamental foi lançada a 12 de outubro de 1812, em homenagem ao aniversário do "sereníssimo Senhor Príncipe da Beira, o senhor D. Pedro de Alcântara" (...).»
Wikipédia

[Acaraú é um município brasileiro do estado do Ceará.]
«As três tochas que sobrepõem o escudo simbolizam o ensino, a pesquisa e a extensão, como missão (...).

Fita em que se escreve a divisa heráldica em latim: AGERE SEQUITUR ESSE, que, em português, significa: O AGIR SEGUE O SER. »
Site

14.4.09

Nossa Senhora da Vida

«Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805)

Em 14 de Abril de 1786, embarcou como oficial de marinha para a Índia, na nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena", que chegou ao Rio de Janeiro em finais de Junho.

Invocação à Noite

Ó deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes
(...)
Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!
(...)»
Google

Carlos do Carmo - Estrela da Tarde



«Carlos Alberto (do Carmo) Ascenção de Almeida, mais conhecido como Carlos do Carmo, (Lisboa, 21 de Dezembro de 1939)»
Wikipédia

«(...)
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
(...)
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz
Que morria
(...)
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
(...)
Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram
.
(...)
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto...»
Ary dos Santos

Apollo 8

«Apollo 8 foi a primeira missão do Projeto Apollo a levar homens à Lua. A missão decolou em 21 de dezembro de 1968 (...).
Embora os astronautas Frank Borman, James Lovell e William Anders, não tenham pousado no solo lunar, na noite de Natal de 1968, eles foram os primeiros homens a circum-navegar a Lua (...).»
Wikipédia

Ilhas de S. Tomé e Príncipe

Ilha do Princípe

«[21 de Dezembro] 1471 - João de Santarém e Pedro Escobar descobrem as ilhas de São Tomé e Príncipe.

(...) um escravo chamado Amador, considerado herói nacional, controlou cerca de dois terços da ilha de São Tomé.

As ilhas de São Tomé e do Príncipe ficam situadas junto à linha do Equador (...).»
Wikipédia

Diamante D'Oeste - Paraná

«Fundação 21 de dezembro de 1987

Hino
Foi aqui numa história vibrante,
Que os pioneiros num esforço viril,
Através de uma luta incessante,
Descobriram essa terra gentil.
Visionários de[a] esplêndida aurora,
Adentraram no sertão agreste,
E da mata cidade a flora,
Tão pujante Diamante D’Oeste.

Diamante D’Oeste!
Hei-de dizer com orgulho e muita emoção,
Eternamente feliz hás-de ser,
Viverás sempre em meu coração.
Rio São Francisco a irrigar caudaloso,
O algodão,
E os vales em flor,
Anunciando um porvir venturoso,
Pleno de alegria e amor.

Nossa Senhora Aparecida Padroeira,
Com seu manto protege este chão,
Abençoando esta gente altaneira,
Que trabalha com fé e união.
Ser seu filho pra mim é uma glória,
Que será eterna em meu coração,
Siga firme pela estrada da Vitória,
Diamante D’Oeste, querido torrão.»
Wikipédia

Uma Mulher Vestida de Sol

«Depois apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés, e com uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava com as dores de parto e o tormento de dar à luz.»
Apocalipse de S. João

Quem é o que Vê, não precisa de ter vergonha

Esconder o que seja dos outros
seria esconder de mim mesma:
pois eu sou os outros;
e eu não tenho vergonha dos outros:
de mim!

Vênus

13.4.09

A Porta do Amor Imortal

«(...) nosso senhor Jesu Christo não só he caminho mas também porta. [Frei Sebastião Toscano - 13/06/1580]

(...) o amor não se poderá separar do conhecimento, como forças entre si unidas e que através da contemplação, levarão a essa usufruição última e desejada de Deus: a força do conhecimento sempre aumentando a força do amor, e reciprocamente. (...) como ordem de amor e pelo amor. E nessa união derradeira, que é sono espiritual da alma, se realizará a perfeição desse amor
Dalila Pereira da Costa, Místicos Portugueses do Século XVI (1986)