31.5.09

Sem Ti

Sinto falta do Teu silêncio.

Ouvir o Coração

Nesta vida raras foram as conversas que se deram sem erro, falta. Muitas foram as que em silêncio poderiam ter sido perfeitas: se não nos tivessem (des)habituado (ai de nós, tão desabitados) a ignorar o silêncio - a Vida.

29.5.09

Olhar Sertanejo

«(...) o sertão é uma visão.


O Sertão é o Mundo.»
À volta do livro de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas

27.5.09

Não ser

«Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!...»
Florbela Espanca, Charneca em Flor (1930)

26.5.09

Até ao Fim

«A vida inteira dentro de mim.»
Vergílio Ferreira, Até ao Fim (última frase do livro)

25.5.09

Som do Verão



Música do Verão Passado - Futuro ?

17.5.09

Fogo

Jamais se apaga o que tudo apaga acendendo-se.

15.5.09

Eros

«MÁSCARAS! Máscaras! Deslumbrai o Eros.
Quem aguenta os seus olhos coruscantes,
quando, como o solstício do verão,
interrompe o prelúdio primaveril?

Como de súbito a loquacidade
se faz outra e séria... Algo gritou...
E ele lança o calafrio inominado,
como o interior dum templo, em cima deles.

Oh! perdidos!, de súbito: Perdidos!
Rápido é o abraço dos deuses.
Torceu-se a vida, o destino nasceu.
E no íntimo uma fonte chora.»
Rainer Maria Rilke, Poemas - 1924

Leda e o Cisne

«Quando, na sua aflição, entrou no cisne,
o deus quase tremeu por o achar tão belo;
Todo confuso desaparece dentro da ave.
Mas já a sua astúcia o leva à acção

antes mesmo de ter experimentado
o sentir do não-provado ser.
E a bela aberta reconheceu no cisne
o que vinha e sabia o que pedia

e que ela, confusa em sua resistência,
já não podia ocultar. Ele abaixou-se,
e, pelo pescoço, através da mão que esmorecia,

entrou o deus dentro da amada.
Só então é que ele, feliz, sentiu a plumagem
e se fez cisne real no seu regaço.»
Rilke, Novos Poemas

Canto das Mulheres ao Poeta

«Vê como tudo se abre: assim nós somos;
pois nós somos mais que esta alegria.
Tudo o que num bicho é sangue e trevas
cresceu e fez-se alma em nós e grita

como alma. E é por ti que grita.
É verdade que tu o tomas só nos olhos
como paisagem: suave e sem desejo.
E por isso nós julgamos não seres tu

por quem grita. Todavia, não és tu
aquele em quem nos perderíamos de todo?
E seremos nós em qualquer outro mais?

Connosco passa por ti o infinito.
Mas tu, boca, sê, que nós o ouçamos,
mas tu, tu que nos exprimes: tu sê.»
Rilke, Novos Poemas

14.5.09

Pórtico

«Quem quer que sejas: Quando a noite vem,
sai do teu quarto onde tudo conheces;
a tua casa é a última ante o longe:
Quem quer que sejas.
Com teus olhos, que, de cansados, mal
conseguem libertar-se do teu limiar gasto,
levantas devagar uma árvore negra
e põe-la ante o céu: esguia, só.
E fizeste o mundo. E ele é grande
e como palavra ainda a amadurar no silêncio.
E quando o teu querer abrange o seu sentido,
teus olhos o abandonam, ternamente...»
Rilke, O Livro das Imagens

Coração, o Trono da Palavra

«Tenho tal medo da palavra dos homens.
Eles exprimem tudo com tanta clareza:
e isto chama-se cão e aquilo casa,
e aqui é o começo e acolá é o fim.

E também me amedronta o seu sentido e o seu jogo com o escárnio,
eles sabem tudo o que vai ser e já foi;
não há monte que lhes seja maravilha;
o quintal e a quinta deles vão às fronteiras de Deus.

Hei-de advertir e opor-me: Ficai de largo!
Gosto tanto de ouvir cantar as coisas.
Mal lhes tocais, ficam hirtas e mudas.
Matais-me todas as coisas.»
Rainer Maria Rilke, Alba Poética

«O que estava sentado no trono afirmou: Eu renovo todas as coisas
Ap 21:5

Eu Só

O Mistério Maior é o Silêncio, é silencioso. É ausência, e a ausência não tem mistério: não tem, nem é, nada.

Mistério é Ser. Mas Ser é só(l) Ser.

Eu sou

Manu Chao



Raiz, Rainha

Não há progresso sem re(i)gresso

13.5.09

O Mistério Maior? Não haver Mistério.

«O maior segredo é não haver mistério algum.»
Renato Russo

«E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.»
Alberto Caeiro

O Grito (do) Criador

«As criaturas da esperança recebem a palavra do apóstolo, a palavra nova, que é o seu próprio silêncio feito voz. Ouvindo-a, alegram-se, como num súbito ambiente luminoso. Ávidas de arder, incendeiam-se de alegria. Elas e o apóstolo encontraram-se no mesmo caminho do Futuro. Algumas, tentam deter-lhes a marcha, ou ficam, nas margens, paradas ou hesitantes. Mas quem as deterá no seu ímpeto? Quem deterá a fome, a sede...?
Paulo não transmitia às almas a sua doença, porque elas já sofriam, como ele; mas sofriam sem remédio. Escravas, ignoravam a liberdade; criminosas, ignoravam o perdão; mortais, ignoravam a imortalidade. E eis que aparece um criminoso, que viu o perdão em Jesus Cristo; um escravo, que viu a liberdade em Jesus Cristo; um mortal, que viu a imortalidade em Jesus Cristo. É S. Paulo.
Todos queremos emendar a nossa vida; mais: emendar a Vida. A que aspira o criminoso? A ser inocente. E quem sofre? A gozar. E quem morre? A ressuscitar. Será possível? A razão diz que não. Mas Paulo diz que sim, gritando. Este sim é ele mesmo, volatilizado num grito, que abala e renova todas as coisas. Podemos duvidar duma palavra, dum grito ninguém duvida; vem de mais fundo que a palavra e sobe mais alto do que ela. O verbo do apóstolo tem a intensidade dos gritos. É o verbo divino da loucura, que todo o acto criador é de loucura, desde o Genesis. Ofende a ordem estabelecida, a harmonia consagrada, os ditâmes da razão humana. A atitude divina é anti-racional [supra].
Paulo afirma de tal modo a sua ideia religiosa, que lhe dá perfeita realidade. É um condensador de nubelosas, um acendedor de estrelas. Para ele, evocar é materializar. Evoca Jesus e converte-o num ser presente. A dor pertence ao corpo, embora seja a alma a padecê-la. A dor é deste mundo; e o seu poder plástico infinito concebe anjos e deuses, que penetram nos domínios da existência.
Paulo afirma Jesus e todos o acreditam, porque o vêem, na sua afirmação, como ele o vê. Paulo viu Jesus e ouviu-o! Como descrer ou duvidar? A descrença é cegueira e a dúvida é falta de vista. Duvidar é pensar em linha quebrada; mas crer é pensar em linha recta. A crença é a mais curta distância entre a Verdade e o nosso pensamento, ou é, talvez, a ausência de distância entre a Verdade e o Pensamento.
Nem os seus olhos nem os seus ouvidos se enganaram. Não é Paulo o espírito da luz e o do som, o instinto fatal que não se ilude? Esse instinto de anjo ou bruto, que divinizou a ibis e o touro negro, no Egipto, e outros bichos ainda, que nos bichos, e até nas árvores, há um valor secreto e mitológico. Moisés e Alexandre usaram chifres, na cabeça. Tocaram-se de mistério e divindade, como Virgílio, cingindo a coroa de louros, e os padres celtas envolvendo-se na sombra litúrgica dos bosques.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

«Já viram Deus as minhas sensações...»
Fernando Pessoa, Passos da Cruz

12.5.09

Os amantes

René Magritte, 1928

Ser apenas o que vê, não ser quem vê.
Mas para não ser quem vê... não se vê...

ficando o ouvir,
o invisível amor em estado puro - Original.

«Amar Jesus é ser com ele na morte passageira e na vida eterna. Não se trata de sobrevivência, em nós, de qualquer entidade invisível e abstrata, mas do próprio corpo [do coração: do Amor] ressurgido.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

10.5.09

Agora, só falta a Vida...

9.5.09

Dia

«Amanhece.
O poeta de penas já cantou.
Já nos seus altos versos adormece
O fantasma da noite que passou.

Como um halo de sonho acontecido,
A luz das coisas vai nascendo em nós;
Desenha-se na sombra o pressentido,
E a vida já tem gestos e tem voz.

Já novamente o sol doira a frescura
Da relva verde e do lençol de linho.
Outra vez há ternura
De gente a ver-se e de se ver caminho.»
Miguel Torga, Diário II

7.5.09

Grito da Serra

A Água é o grito mudo da Terra:

é o grito que dá à Luz.

Exercício Espiritual

«Ouço-os de todo o lado.
Eu é que sou assim,
Eu é que sou assado,
Eu é que sou o anjo revoltado,
Eu é que não tenho santidade...

Quando, afinal, ninguém
Põe nos ombros a capa da humildade,
E vem.»
Miguel Torga, Diário I

5.5.09

Ave Poética

«Somos um povo de apaixonados. Enamoramo-nos dum autor, ou odiamos pessoalmente um outro, e a nossa actividade crítica cessa. Do primeiro fazemos um génio; do segundo, um animal. Esta simples coisa de gostar simultaneamente da obra de dois escritores, é impossível aqui. A paixão duma exclui a da outra. (...)
Sofre de grandes vícios a vida mental portuguesa (...). Não há pregação que nos dê fantasia, finura, leveza e, sobretudo, o dom de argamassar as fendas da construção com o betume duma inteligência que não cesse de se desdobrar. Mas um dos mais feios e lamentáveis é esse da parcialidade e do exclusivismo. Está bem, ou compreende-se, que num campo de futebol cada qual berre apenas pelo seu grupo. Embora em absoluto devêssemos aplaudir também as jogadas do adversário, tratando-se dum desafio é preciso incitar os nossos. Em arte, porém, não há combate nem adversários. Há o esforço de cada criador para trazer ao mundo a consciência e a beleza que pode, e ninguém deveria ignorar esse esforço e deixar de o louvar, se ele valesse a pena.

Lavro aqui mais uma vez o meu protesto contra toda esta filosofia do pessimismo que nos sufoca, e esta literatura do absurdo que nos liquida. Nenhum argumento nem nenhum sortilégio podem apagar no espírito do homem a luz de ilusão que ali bruxuleia. O erro grosseiro dos ironistas e dos derrotistas é não verem que eles próprios desmentem o visco e as profecias, porque, se lutam, é porque confiam. Sobretudo, parece-me uma limitação querer fotografar para a eternidade a face monstruosa dum momento. A Europa pode estar cansada, falida, contaminada por vícios incuráveis; mas a Europa não é o mundo, e ela própria tem ainda pedaços do corpo sem gangrena. Quando todos os analfabetos e famintos que lhe restam tiverem voz e pão, e falem de náusea, quando a herança da história, os bens do espírito, forem repartidos igualmente por todos os seus filhos, e o clamor colectivo seja de teimosa renúncia, então sim, soou a sua hora. Mas antes disso, não!
Um equívoco lamentável fez com que se tomassem as palavras literárias que morriam na capa das brochuras por sentimentos reais que agonizavam. E se é verdade que nos livros a tinta dos vocábulos descorou, dentro de cada um de nós o coração continuou a pulsar.
O homem é não só o instante em que se contempla num espelho, mas também a saudade doutras imagens passadas de que se recorda, e a certeza doutras imagens futuras que adivinha. E lá porque vê presentemente reflectida no ribeiro, onde mais uma vez faz de Narciso, não para se namorar, mas para se conhecer, uma face macerada, coberta dos suores da cobardia, nem por isso afoga na corrente os seus olhos. Embora triste e mortificado, continua a viver. E isto é sinal de confiança. Uma prova de que o mal tem remédio.
Se mais não houvesse a esperar da nossa condição, bastava-nos a má-consciência com que nos debatemos depois de cada perfídia. Pedimos ou não pedimos à lei que nos socorra, mesmo quando a queremos negar? Ou deixou algum tirano de lavar apressada e secretamente as mãos sujas do sangue inocente que verteu?
Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da actual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos profissionais deitam sal nas chagas para as avivar.
Alienação humana! Quem é que autorizou meia dúzia de intelectuais impotentes a falar deste modo em nome da humanidade? A chapinhar na lama deles, e a proclamar que é na lama dos outros? Que o testemunho da nossa aventura na terra é um rosário de traições e de injustiças, ninguém o nega; que é preciso que se diga isso de todas as maneiras, é evidente; mas nem tudo o que fizemos foi mau, e estamos a começar ainda.
Não! Há-de haver uma salvação possível neste mar de naufrágios, e vão sendo horas de erguer a voz contra os derrotistas da jangada. Aterrados pelas suas fúnebres ladainhas, temo-nos esquecido de reparar nos acenos do horizonte, onde amanhece sempre uma ilha à nossa espera. Não a ilha solitária de Robinson, que seria o recomeçar inútil duma vida de egoísmo e de esterilidade, mas o húmus generoso dum novo mundo onde se possa semear a esperança.

Não tenho nada mais senão as asas.
Quando subo os degraus do firmamento,
É com elas que subo e que sustento
O peso bruto desta incarnação.
Asas de penas que me vão nascendo,
E que voam depois, desconhecendo
Que fúria azul as levantou do chão.

(...) não há palavra que se escreva sem esperança.»
Miguel Torga, Diário V

Pois, «(...) é sempre alegre o gesto criador, a palavra inicial.»
Dora Ferreira da Silva, Poemas em Fuga

3.5.09

Anátema

«Não amas, e não podes
Ler o livro da vida.
Sem amor nenhuns olhos são videntes.
A tarde triste é o sol que não consentes
Ao coração.
Mundo de solidão,
O que atravessas,
É um deserto habitado
Onde apenas tropeças
Na sombra do teu eu desencantado.»
Miguel Torga, Idem

Lamento

«Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...»
Miguel Torga, Idem

Expectação

«Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.»
Miguel Torga, Diário XII

Alvo

«O arco, a corda e a seta...
Mas erraste,
Poeta!
Em vez de ser no coração do mundo
Que acertaste,
Foi o teu que rasgaste.

E tão frágil que ele era!
Rubra quimera
Aberta à desventura
Do eterno desdém,
Pedia aquele cuidado que se tem
Junto dum berço ou de uma sepultura.

Mas desferiste o golpe enraivecido,
Sem reparar
Que o agressor é sempre o agredido
Quando agride a cantar.»
Miguel Torga, Orfeu Rebelde

2.5.09

Não Passarão

«Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!»
Miguel Torga, Idem

A Raça

«Enxame rumoroso num cortiço
De paredes de espuma,
Que tropismo secreto e movediço
Trouxe da bruma
A abelha-mestra que o começou?
Que carinhoso aceno
Lhe faria este chão, seco e moreno,
Onde com asas de ilusão pousou?

Talvez que o silêncio lhe dissesse
Que só daqui, materna, poderia
Embarcar o enxame,
Que nascesse,
No velame
Doutra ilusão que o tempo lhe daria...»
Miguel Torga, Idem

Ibéria

«Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.

Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).

Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.»
Miguel Torga, Poemas Ibéricos

Terra Maninha

«Se é um poema fraterno que pedis,
Arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.

Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
Era o terreno da plantação!»
Miguel Torga, Cântico do Homem

1.5.09

Grande Guerra

«Podes roubar-me o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come.
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me, até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal... e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo-me as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu, que és senhor de impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me paz, saúde, e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
Que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas raízes supremas
São mordaças, grilhões, vendas, algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
"Filho, vem até mim!
A História principia onde eles põem: fim".»
José Régio, A Chaga do Lado

País da Amargura

Triste é a luta de (c)egos.
Luto meu.