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11.6.10

Permitam que o Amor flua

"O que acontece se vocês têm um pai fraco ou que foi ferido de um modo ou de outro, isto impede a sua mãe interior de estar no papel feminino e no papel de mãe, e ela tem que compensar pelo pai e, portanto, uma vez que ela tenha compensado pelo pai, ela não é mais a mãe? Ela está no papel do pai. É muito importante dentro de vocês, em seu mundo interior, que vocês criem um mundo onde o seu pai seja suave e gentil, amoroso, poderoso e destemido. Esta é a verdadeira natureza da masculinidade e esta é a verdadeira natureza da paternidade. Nós usamos a analogia do rio para descrever isto, a masculinidade para as margens do rio ou a energia do pai e a água que flui no rio, é o feminino. Tudo o que as margens do rio fazem, é guiar o feminino em sua jornada de volta para o mar."
Kryon, canalizado por David Brown

28.6.09

Chegar

«Nós estamos aqui para fugir,
nós estamos aqui para chegar de vez.»
Vasco Gato (num túnel de Belém, Lisboa)

27.5.09

Não ser

«Ser haste, seiva, ramaria inquieta,
Erguer ao sol o coração dos mortos
Na urna de oiro duma flor aberta!...»
Florbela Espanca, Charneca em Flor (1930)

23.5.09

13.5.09

O Grito (do) Criador

«As criaturas da esperança recebem a palavra do apóstolo, a palavra nova, que é o seu próprio silêncio feito voz. Ouvindo-a, alegram-se, como num súbito ambiente luminoso. Ávidas de arder, incendeiam-se de alegria. Elas e o apóstolo encontraram-se no mesmo caminho do Futuro. Algumas, tentam deter-lhes a marcha, ou ficam, nas margens, paradas ou hesitantes. Mas quem as deterá no seu ímpeto? Quem deterá a fome, a sede...?
Paulo não transmitia às almas a sua doença, porque elas já sofriam, como ele; mas sofriam sem remédio. Escravas, ignoravam a liberdade; criminosas, ignoravam o perdão; mortais, ignoravam a imortalidade. E eis que aparece um criminoso, que viu o perdão em Jesus Cristo; um escravo, que viu a liberdade em Jesus Cristo; um mortal, que viu a imortalidade em Jesus Cristo. É S. Paulo.
Todos queremos emendar a nossa vida; mais: emendar a Vida. A que aspira o criminoso? A ser inocente. E quem sofre? A gozar. E quem morre? A ressuscitar. Será possível? A razão diz que não. Mas Paulo diz que sim, gritando. Este sim é ele mesmo, volatilizado num grito, que abala e renova todas as coisas. Podemos duvidar duma palavra, dum grito ninguém duvida; vem de mais fundo que a palavra e sobe mais alto do que ela. O verbo do apóstolo tem a intensidade dos gritos. É o verbo divino da loucura, que todo o acto criador é de loucura, desde o Genesis. Ofende a ordem estabelecida, a harmonia consagrada, os ditâmes da razão humana. A atitude divina é anti-racional [supra].
Paulo afirma de tal modo a sua ideia religiosa, que lhe dá perfeita realidade. É um condensador de nubelosas, um acendedor de estrelas. Para ele, evocar é materializar. Evoca Jesus e converte-o num ser presente. A dor pertence ao corpo, embora seja a alma a padecê-la. A dor é deste mundo; e o seu poder plástico infinito concebe anjos e deuses, que penetram nos domínios da existência.
Paulo afirma Jesus e todos o acreditam, porque o vêem, na sua afirmação, como ele o vê. Paulo viu Jesus e ouviu-o! Como descrer ou duvidar? A descrença é cegueira e a dúvida é falta de vista. Duvidar é pensar em linha quebrada; mas crer é pensar em linha recta. A crença é a mais curta distância entre a Verdade e o nosso pensamento, ou é, talvez, a ausência de distância entre a Verdade e o Pensamento.
Nem os seus olhos nem os seus ouvidos se enganaram. Não é Paulo o espírito da luz e o do som, o instinto fatal que não se ilude? Esse instinto de anjo ou bruto, que divinizou a ibis e o touro negro, no Egipto, e outros bichos ainda, que nos bichos, e até nas árvores, há um valor secreto e mitológico. Moisés e Alexandre usaram chifres, na cabeça. Tocaram-se de mistério e divindade, como Virgílio, cingindo a coroa de louros, e os padres celtas envolvendo-se na sombra litúrgica dos bosques.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

«Já viram Deus as minhas sensações...»
Fernando Pessoa, Passos da Cruz

12.5.09

Os amantes

René Magritte, 1928

Ser apenas o que vê, não ser quem vê.
Mas para não ser quem vê... não se vê...

ficando o ouvir,
o invisível amor em estado puro - Original.

«Amar Jesus é ser com ele na morte passageira e na vida eterna. Não se trata de sobrevivência, em nós, de qualquer entidade invisível e abstrata, mas do próprio corpo [do coração: do Amor] ressurgido.»
Teixeira de Pascoaes, São Paulo

9.5.09

Dia

«Amanhece.
O poeta de penas já cantou.
Já nos seus altos versos adormece
O fantasma da noite que passou.

Como um halo de sonho acontecido,
A luz das coisas vai nascendo em nós;
Desenha-se na sombra o pressentido,
E a vida já tem gestos e tem voz.

Já novamente o sol doira a frescura
Da relva verde e do lençol de linho.
Outra vez há ternura
De gente a ver-se e de se ver caminho.»
Miguel Torga, Diário II

7.5.09

Exercício Espiritual

«Ouço-os de todo o lado.
Eu é que sou assim,
Eu é que sou assado,
Eu é que sou o anjo revoltado,
Eu é que não tenho santidade...

Quando, afinal, ninguém
Põe nos ombros a capa da humildade,
E vem.»
Miguel Torga, Diário I

3.5.09

Lamento

«Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...»
Miguel Torga, Idem

Expectação

«Devolvo à tarde triste a luz que me entristece,
E vou entristecendo
O largo,
O rio,
O campo
E, mais além, a linha do horizonte.
Mas repreendo os olhos e regresso
À página vazia
Onde, possesso,
Aguardo que desponte
A luz de um novo dia.

Um dia alegre,
Limpo,
Singular,
De nenhuma semana,
De nenhum mês,
De nenhum ano,
Miraculosamente amanhecido
Nas sílabas de um verso enfeitiçado,
A ressoar, medido e desmedido,
Na concha do ouvido
Deslumbrado.»
Miguel Torga, Diário XII

2.5.09

A Raça

«Enxame rumoroso num cortiço
De paredes de espuma,
Que tropismo secreto e movediço
Trouxe da bruma
A abelha-mestra que o começou?
Que carinhoso aceno
Lhe faria este chão, seco e moreno,
Onde com asas de ilusão pousou?

Talvez que o silêncio lhe dissesse
Que só daqui, materna, poderia
Embarcar o enxame,
Que nascesse,
No velame
Doutra ilusão que o tempo lhe daria...»
Miguel Torga, Idem

Ibéria

«Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.

Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
(A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).

Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.»
Miguel Torga, Poemas Ibéricos

27.4.09

Estrela da Manhã

«Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.
Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.

Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece os linhos,
(...).

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressumam-lhe à flor da pele.

Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.

Vai.

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.

Vai.

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.

Vai.

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
tem que ser;
o mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
tem que ser.

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
tem que ser
António Gedeão, Movimento Perpétuo

23.4.09

Re(i)nascendo

«A cada verso nasço...
É cada verso o meu primeiro grito
à Vida...»
Sebastião da Gama, Idem

Versos da Mãe-Terra

«Ó meu país do Sol!
Pressentimento
da claridade celeste!
Ó fonte de Pureza!
Ó minha
Serra toda pintada de Esperança
e debruada de azul!
Reveladora maga
dos meus cinco sentidos (...)
Ó minha outra Mãe,
que, num leito de flores e sorrisos,
me deste à luz de seda das Estrelas!
(...)
Ó Serra aonde a cor
é luz extasiada!;
(...)
Ó minha amante sempre virgem
(...)
Ó sorriso do Mar!, ó búzio longo
que prolongas a grande voz salgada!
(...)
Pátria do mês de Maio!
Madrugada
do Dia que há-de vir p'la mão da Morte!»
Sebastião da Gama, Idem

13.4.09

A Porta do Amor Imortal

«(...) nosso senhor Jesu Christo não só he caminho mas também porta. [Frei Sebastião Toscano - 13/06/1580]

(...) o amor não se poderá separar do conhecimento, como forças entre si unidas e que através da contemplação, levarão a essa usufruição última e desejada de Deus: a força do conhecimento sempre aumentando a força do amor, e reciprocamente. (...) como ordem de amor e pelo amor. E nessa união derradeira, que é sono espiritual da alma, se realizará a perfeição desse amor
Dalila Pereira da Costa, Místicos Portugueses do Século XVI (1986)